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Burocracia, uma palavra francesa

A criação do termo burocracia é atribuída a Jean-Claude Marie Vincent, ministro francês do século XVIII. A palavra tem seus radicais no francês bureau, escritório, e no grego krátos, poder. Assim, o significado original de burocracia é o exercício do poder por funcionários de escritórios. E não é à toa que esta palavra tem a sua origem no solo gaulês. Um personagem animado, não por acaso, gaulês, pode nos mostrar muito bem como funcionam os serviços de escritório na França:

(Os vídeos estão em português, mas em francês é muito mais divertido!)

Para ilustrar os problemas que todos passamos dentro dos bureaus franceses, contar-lhes-ei a novela que se passa comigo há alguns meses:

– Julho: Férias no Brasil! Praia, água de coco, churrasco, vida boa, avião. Chegando de volta à França, a universidade já de férias, tornando impossível a solicitação do histórico escolar, documento necessário para a renovação do visto e da residência universitária. Ainda assim, consegui falar com uma funcionária da universidade, que prometeu preparar o documento e entrar em contato por e-mail para eu ir buscar. Nunca mais tive notícias.

Burocracia, la tortuguita

– Agosto: Já no início do mês, é o CROUS quem entra de férias (órgão que gerencia os alojamentos estudantis). Assim, me impossibilitando de dar entrada na solicitação de renovação do alojamento (cujo contrato vencia no dia 31 de agosto). Ainda assim, através de outro meio, consegui com que o meu dossiê chegasse ao CROUS no dia 8 de agosto. Cabe lembrar que, pra cada solicitação que fazemos aqui, do que quer que seja, temos que entregar um dossiê com vários documentos, muitos dos quais eles já têm, mas (teoricamente) não aceitam se você não entregar o dossiê completo. No meu caso, foi sem o histórico escolar mesmo, e não reclamaram por causa disso, reclamaram foi porque não poderiam me atribuir um quarto sem que eu tivesse um visto válido, e o meu havia vencido no dia 2 de agosto.
Para os estrangeiros na França, existe o titre de séjour, um documento válido por um ano e que garante a sua legalidade no país. Quem está no seu primeiro ano na França, entretanto, não recebe este documento, mas dois adesivos no passaporte: um, dado pelo consulado no Brasil, e o outro dado pelo escritório de imigração (OFII) na França. Este último garante ao estrangeiro os mesmos direitos dados pelo titre de séjour.
Ora, o meu visto venceu em 2 de agosto, mas o documento do OFII tem validade de um ano, e o meu tinha carimbo de 29 de novembro (sim, foi só no fim de novembro que consegui o carimbo, ano passado, mas isso é outra história). Enviei mais de uma vez este documento ao CROUS, mas a única resposta que obtive foi “infelizmente, não podemos aceitar o documento do OFII para este fim, precisamos do titre de séjour“.
Ainda em agosto, então, juntei documentos e fui à prefeitura solicitar a renovação do meu visto, e então pegaria o meu titre de séjour. A prefeitura, entretanto, solicita, na composição do dossiê, a inscrição ou pré-inscrição da faculdade. Nesta época, eu tinha apenas uma carta de aceitação ao M2 (segundo ano de mestrado), condicionada à minha aprovação no M1, cujas provas de recuperação eu ainda tinha a fazer. Solicitei uma atestação de pré-inscrição à faculdade, mas, claro, não fui respondido: estavam de férias até o fim de agosto. Não pude entregar o dossiê de renovação do visto.

É só um dossiezinho...

– Setembro: Sem ter conseguido renovar visto nem residência, fiquei sem teto. A solução foi me alojar temporariamente na casa da namorada, somente até eu conseguir renovar o visto e pegar um quarto para mim. Com o fim das férias, a universidade me enviou a atestação que eu pedi, mesmo antes do resultado do M1, que sairia apenas no dia 20 (as aulas do M2, a propósito, começaram no dia 12, uma semana antes de eu saber se tinha sido aprovado, ou seja, fui para aula sem saber se ia seguir o curso e sem estar inscrito… coisas da França).
Com a chegada de setembro e os inúmeros estudantes retornando de férias ou chegando ao país, passa a ser necessário agendar horário para ir à prefeitura entregar o dossiê. Então fiz o agendamento no início do mês e fui marcado para o dia 14. O curioso é que, neste dossiê, é preciso entregar comprovante de residência. Então pedi a uma amiga que preenchesse um documento dizendo que eu estava alojado na casa dela (pois eu não poderia, segundo as regras, estar hospedado no quarto da minha namorada). Fui todo pimpão à prefeitura e quase esmurrei a parede quando a moça me disse que eu tinha que levar cópia do documento e comprovante de residência da pessoa que me hospeda. Ok, desta vez foi mesmo minha culpa, eu não li direito e não vi que estes documentos eram necessários. Posso entregar o dossiê e vir amanhã entregar estes outros dois documentos? “Não. Temos que agendar um novo horário. O mais próximo é no dia 7 de outubro.” Holy crap.

Sem pressa, dona Burocracia

– Outubro: Dia 7. Lá vou eu novamente à prefeitura, agora com a cópia do titre de séjour da minha amiga e o contrato de locação do apartamento. A moça me informa que o contrato de locação não serve, é preciso que seja uma fatura recente, e ela não pode aceitar o meu dossiê. Além disso, implica com outros documentos que não estão no padrão que ela costuma ver. Aí eu já não aguentei. “Não é possível, é a terceira vez que venho aqui e sempre tem algum problema!” A moça se espantou e disse “pois me conte a sua história”. Quando eu disse que estava na casa da minha amiga temporariamente, e após pegar o documento da prefeitura eu solicitaria novamente um alojamento universitário, ela teve duas reações: a primeira foi estranhar, pois “todos os dias, quinzenas de estudantes” vão lá renovar ou solicitar o visto e já têm uma residência universitária para o ano. A segunda foi me informar que, para solicitar a renovação eu preciso ter um endereço definitivo, pois, se eu mudar de endereço depois, é necessário entrar com um novo pedido, entregar um novo dossiê, pagar novamente… então o meu próximo passo deveria ser conseguir um quarto. Saí de lá com um novo agendamento para o dia 7 de novembro.
No mesmo dia, de posse das novas informações, fui ao CROUS reclamar. A moça insistiu que eu não poderia pegar um quarto sem ter o visto válido, disse que eu deveria ter solicitado o visto mesmo com o endereço de onde eu estava, blablabla. Então me deu na telha de mostrar a ela o meu passaporte, com o adesivo e carimbo do OFII. Ela olha e responde “ah, isso serve. Você deveria ter mostrado isso antes”. Olhei para ela embasbacado e disse “mas eu enviei esse documento duas vezes antes…”; “não, você deve ter enviado este outro” (mostrando o visto, vencido no dia 2 de agosto). Ok, melhor não discutir, vai que ela muda de ideia, né? Na mesma hora ela me entregou o documento dizendo que eu podia pegar um quarto na secretaria da residência.
Saindo do CROUS, pensei em não perder mais tempo e fui direto à secretaria pegar o meu quarto novo. Lá duas moças super atenciosas me atenderam, e uma terceira ficou resmungando comigo e querendo me passar sermão. Acontece que no documento dizia que eu tinha 72 horas para entregar um dossiê contendo documentos de fiador, caução e o diabo. Por experiência, eu já sei que eles são super maleáveis com prazos e que eles concedem o quarto antes de termos todos os documentos, podendo entregá-los depois, mas essa moça aparentemente não foi com a minha cara mesmo. Assim, os dois dias subsequentes foram correndo atrás de uma maneira da faculdade ser minha fiadora (o que eu sei que pode ser feito porque conheço uma pancada de gente que fez isso, mas aparentemente é muito difícil encontrar alguém na faculdade que saiba como isso deve ser feito). Ao entregar o documento na secretaria, a moça não queria aceitar; disse que não era comum o fiador ser a faculdade, falou com os superiores, resmungou, mas no fim teve que acatar. E assim eu tenho mais uma vez meu espaço.

Acho que agora não falta nada!

– Novembro: No dia 7 volto à prefeitura. Desta vez não pode dar erro, tenho todos os papéis em mãos 🙂

Aparentemente, é muito comum aqui na França a interpretação bastante particular das regras. Ou seja, todos querem seguir as regras, mas cada funcionário interpreta de um jeito, ou acha que é de um jeito. Temos três exemplos só nessa história: a funcionária do CROUS que disse que o meu documento não valia, e depois a outra que aceitou; a funcionária da prefeitura que implicou com documentos que a funcionária anterior disse que eram bons; a funcionária da residência que não queria me dar o quarto, até que o chefe dela disse que podia.
A lição que tiramos dessa história é: não desista. Se você foi impedido por alguém de realizar uma ação burocrática, volte outro dia e fale com outra pessoa.

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Grenoble-Brésil

Ei, você, que está aí no Brasil, querendo fazer um intercâmbio, um mestrado, um doutorado, um duplo diploma, alguma coisa assim diferente, mas fora do Brasil, não deixe passar essa oportunidade!!

O programa Grenoble-Brésil está com inscrições abertas para o ano letivo 2011-2012, mas agilize que é só até o dia 30 de março (para o Master)! Você pode se inscrever sem ser por esse programa? Pode. Mas o programa Grenoble-Brésil te auxilia em muitas coisas, por exemplo, a conseguir uma residência, te auxilia no que for preciso na sua acolhida aqui, além, é claro, de fornecer um curso intensivo de francês durante o mês de agosto – mês que pode ser o melhor da sua vida.

Pra quem vai fazer intercâmbio, parece que o limite é 16 de maio, mas não deixe tudo para a última hora! São vários documentos para correr atrás, tirar cópia, traduzir, enviar etc, sem falar na novela do visto. Faça logo o seu passaporte, separe seus documentos (comprovantes de renda e esse tipo de coisa) e agende uma entrevista no consulado assim que possível, porque essa etapa é bem demorada.

Vocês podem acompanhar a novela que eu passei nos primeiros posts deste blog, ou podem me perguntar qualquer coisa pelos comentários ou por e-mail, que eu respondo (sempre que posso…).

Venham pra Grenoble que é muito legal! =)

E eis o site do programa: http://www.grenoble-univ.fr/programme-bresil/

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A vida não é gibi.

Retornando aos acontecimentos recentes da minha vida cotidiana, venho falar sobre como o meu curso é organizado e o final de semestre (acontecimento recentíssimo, de dezembro).

Na França, o esquema de provas de final de semestre é um pouco diferente do Brasil, enquanto no Brasil cada professor escolhe o dia da sua prova, que será durante a sua aula, às vezes entrando em acordo com os alunos pra que eles não tenham duas provas no mesmo dia, e coisas assim, aqui temos uma semana totalmente dedicada às provas. O lado bom disso é que você não tem que se preocupar com coisas novas, porque não está tendo aulas, por outro lado, você tem uma ou duas provas gigantes por dia, com duração de 3h, todos os dias, e, se você não estudou durante o semestre, pode já ser tarde demais.

Outro ponto importante a ser destacado sobre as provas é que elas têm peso 20, mas a média para aprovação, pelo menos no meu curso, é 10. Porém não é necessário ficar acima da média em todas as disciplinas, o que você precisa é ficar acima de 10 na média geral do semestre, ou seja, se você tirou 8 em uma disciplina e 12 na outra, tudo certo. Já se você ficou com uma nota muito ruim em alguma disciplina ou acabou não atingindo a média geral de 10, você precisa recuperar as notas baixas, então você deve fazer outra prova sobre a disciplina (o que chamamos de rattrapage), o que acontece no final do semestre seguinte. Enquanto isso, você cursa o semestre seguinte normalmente (até porque as notas do primeiro semestre só saem algum tempo depois que as aulas do segundo já começaram).

Mas como eu dizia, o peso total da prova é 20, mas, na prática, é quase impossível tirar 20. As provas parecem ser pensadas pra que você tenha tempo e conhecimento para responder apenas 50% ou 60%. E não digo isso porque é comigo que isso acontece, não, já ouvi muitos alunos de vários cursos e várias nacionalidades (mesmo os franceses) perceberem isso. E assim acontecendo, foi que ouvi vários colegas comentando as suas notas (alguns muito decepcionados) entre 10 e 11 (eu, particularmente, fiquei foi muito contente com meu 10.821). Resumindo, foi uma semana tensa, mas, pelo menos sob o meu ponto de vista, com um final feliz.

Bom, isso foi em dezembro, antes das férias de Natal (2 semanas). Após estas férias, voltamos à faculdade, desta vez para fazer um projeto de 1 mês, sem aula, apenas alguma orientação dos professores. O projeto foi apresentado no final de janeiro e contava nota para o primeiro semestre. Em seguida, sem qualquer outra pausa, iniciou-se o segundo semestre letivo, no dia 31 de janeiro. E agora, com um calendário ainda mais cheio:

Vida bandida...

Vocês podem contar aí 10 disciplinas, mais o inglês técnico, mais o estágio (TER). Destas 10, tínhamos que escolher 8 para cursar, ou seja, deixei de lado Robotics e Distributed Systems, o que me deixa um pouco mais livre, mas nem tanto, afinal, todas ou quase todas as disciplinas têm trabalhos para fazermos em casa. Assim, tem sido um semestre cheio, ainda mais que o primeiro, e não quero nem ver quando chegar a semana de provas…

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Il neige!

Surpreendentemente cedo, a neve surgiu no outono de Grenoble em um bonito, ainda que frio, dia de novembro, e foi neve como poucas vezes se viu para um mês de novembro aqui pelas bandas da margem do Isère.

E como não poderia deixar de ser, em uma cidade universitária com intercambistas de todo o mundo – muitos dos quais nunca viram neve -, a primeira noite de neve foi também uma noite de guerra.

Snow Fiiiiiiiight!

Bolas de neve pra cá e pra lá, gente que nunca se viu na vida jogando bolas de neve uns nos outros e se escondendo, bonecos de neve, anjinhos, desenhos… realmente gastamos algumas horas brincando na neve.

Nosso primeiro boneco de neve a Gre!

Brasileiros marcando presença

E por dias aquela neve fez parte das nossas vidas, porque, ô coisinha lenta de derreter, hein.

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