Archive for novembro, 2011

Dijon, Beaune, Auxey-Duresses e… Pommard!

Férias de Toussaints, uma semana livre, mas sem dinheiro, o que fazer? Resolvemos viajar por apenas um final de semana, para algum lugar perto daqui. Após algumas pesquisas, Carol encontrou o festival Coup d’Oeil, Coup de Coeur, na pequena vila de Auxey-Duresses, na Bourgogne, que aconteceria naquele final de semana específico.

Coup d'oeil, coup de coeur

De quebra, poderíamos conhecer Beaune (a cidade mais próxima) e Dijon (capital da região). Assim, começamos a pesquisa: hotel, transporte, comida, etc. Não encontramos hotel disponível (a preço acessível) em Beaune, então resolvemos passar a noite em Dijon. Aí surge o primeiro empecilho: o hotel que encontramos era longe do centro, na saída da cidade. Pesquisamos sobre o transporte em Dijon, sem muito êxito, e resolvemos ligar para o hotel. “Tem como chegar ao hotel de ônibus?” “Não.” “Tram?” “HAHA, certamente não!” (explicação: a cidade toda está em obras, pois estão construindo o Tram em Dijon). Começamos a nos conformar com a ideia de pegar um táxi até o hotel, pois seria mais barato que pegar um hotel no centro.

E já que estávamos pesquisando sobre transporte, como poderíamos chegar a Auxey-Duresses? Ligamos então para a organização do festival. “Existe trem? Ônibus? Tram? Aeroporto? Helicóptero?” Não, acesso apenas por carro. Ou seja, táxi novamente. A brincadeira estava começando a ficar cara. Foi aí que Carol teve a brilhante ideia: por que não levamos nossas bicicletas? Para ir até Auxey-Duresses não seria a solução ideal, pois, pensamos, teríamos que ir pela estrada, mas para passear por Dijon e ir até o hotel, perfeito! O trem que leva à Bourgogne aceita que levemos as bicicletas, então que assim seja!
Compramos, então, as nossas passagens, acordamos cedinho no sábado, pegamos nossas magrelas e rumamos à gare para pegar o trem de 5h46 rumo a Beaune. 9h da manhã em Beaune, fomos fazer o que tem de melhor pra fazer assim que você chega em qualquer cidade da França: procuramos a Office de Tourisme. Lá, pegamos um mapa da cidade e também descobrimos que existe uma ciclovia que liga as vilas da região, inclusive Auxey-Duresses. São 15km, mas nada de ir pela estrada como imaginávamos. Com o mapa em mãos, fomos passear. Primeiro, pela feira da cidade, vendo os produtos da região e comendo framboesas. Depois, uma entrada nos Hospices de Beaune. O prédio, um antigo hospital, tem uma bonita arquitetura e um belo telhado, mas, francamente, é só. Não valeu a pena pagar para entrar. Em seguida, o Museu do Vinho da Borgonha. Um pouco mais interessante, mais barato e mais vazio, explicava sobre o processo de fabricação do vinho, nomenclaturas e regiões de produção.

Feira de rua de Beaune

Hospices de Beaune

Baco, no Museu do Vinho

Após o breve passeio em Beaune e um beef bourguignon no almoço, já era hora de pegarmos outro trem com destino a Dijon. Após encontrar a Office de Tourisme, pegar o mapa com o roteiro turístico e o mapa de ciclovias, lá fomos nós a pé pelo centro, seguindo as corujas. A arquitetura da cidade é muito interessante e os telhados estão sempre chamando a atenção, mas, fora isso, achei não tem muito pra ver. Ainda visitamos um museu, mas já estávamos cansados, então resolvemos ir logo jantar (um McDonald’s) e seguir para o hotel.

De bicicleta na gare de Dijon

O caminho das corujas

A arquitetura de Dijon

E lá fomos, com o mapa em mãos, de bicicleta, percorrer os 4,5km que nos separavam do extremo norte de Dijon, enquanto a noite caía sobre a Bourgogne. A primeira metade do caminho foi tranquila, seguimos o mapa sem problemas. Em um determinado ponto, o mapa estava com um nome de rua errado, mas mesmo assim seguimos o caminho certo. Chegamos à Av. Stalingrad, uma longa avenida que leva à saída da cidade pelo norte, e onde tem uma ciclovia lateral. Ela é também deserta, rodeada de mato em alguns pontos e soturna, à noite. Seguimos eternamente aquela avenida e, quando a ciclovia acabava ali, deveríamos dobrar à direita. Quando a ciclovia acabou, havia mato adiante, saindo da cidade, uma rua onde a ciclovia continuava à esquerda, e, à direita… um pequeno túnel para pedestres e ciclistas, sem nenhuma iluminação.

Clique para ver no Google Maps

Tá vendo esse túnel da foto? Nenhum problema em entrar ali né? Quero ver você dizer isso à noite, nada nem ninguém ao seu redor, nenhuma iluminação a não ser as lanternas das bicicletas (benditas sejam!). Sendo o único caminho possível para nós, lá fomos. Do outro lado do túnel, um pequeno trecho no meio do mato fechado e voilà a rua do nosso hotel! Conseguimos chegar com vida e passamos uma bela noite de sono.

Domingo de manhã, um café da manhã reforçado no hotel (muitas fatias de pão com manteiga!) para aguentar a próxima pedalada! Resolvemos que iríamos mesmo de bicicleta até Auxey-Duresses. Primeiro, 4,5km até a gare. Pegamos o trem de volta para Beaune, atravessamos a cidade e pegamos a véloroute la voie des vignes! O primeiro trecho foi subida, subida, subida… e pequenas paradas para colher umas pinot noirs do pé. Chegamos então a Pommard, já cansados da subida. Com as paradas, fotos, e a diminuição da velocidade por conta do ângulo de inclinação do caminho, demoramos uma eternidade para concluir essa etapa, e chegamos à conclusão de que, se continuássemos nesse ritmo, não chegaríamos a tempo de aproveitar o festival, então resolvemos chamar um táxi. Pegamos os números de táxi que já havíamos anotado e ligamos. Um não atendia, outro só iria estar disponível mais tarde, outro queria cobrar 40 euros só de ida, outro não estava disponível… perguntamos para as pessoas na vila se havia algum táxi por ali e só nos direcionavam para Beaune. Já era mais de 14h e seguir o caminho de bicicleta estava fora de cogitação. Resolvemos tentar almoçar em Pommard mesmo. Restaurantes fechados. Entrei em uma loja de vinhos para perguntar onde havia algum café, ao que a moça respondeu: “o único café é aquele que está ali na esquina, mas está de férias nesta época”. Ou seja, nada para comer também. Perto da desistência, estávamos quase voltando para Beaune, quando surgiu o espírito aventureiro: vamos pedir carona?!

Plaquinha de caroneiros

Sim! Prendemos as bicicletas e fomos para a beira da estrada (que era onde ficava o “café”), com a plaquinha na mão escrito “Auxey-Duresses”. Totalmente incrédulos, é claro, com a possibilidade de realmente conseguir uma carona. Cerca de 5 minutos depois, um carro com duas senhoras, de farol aceso e direção caótica, parou logo na nossa frente. Sim! Conseguimos a carona! Elas moram na região e estavam indo também para a pequena vila a fim de degustar a nova safra de grand crus, embora não soubessem do festival. Fica aqui o nosso agradecimento a elas!

Merci, mesdames!

8 euros depois, estávamos os dois com taças na mão, prontos para passar de vinícola em vinícola experimentando o que a Bourgogne tem para nos oferecer de melhor. Comemos um pequeno lanche, porque saco vazio não para em pé, e saímos a vagar pela multidão concentrada nas ruas da vila. Uma adega, duas adegas, três agedas, quatro adages, cinco adgasda, seich… premier cru, grand cru, duresses, auxey, pommard, blanc, rouge, pinot noir, millésime… tantos conceitos que já não lembro mais nem o que significam. Posso afirmar, contudo, que me agradaram muito os premier crus.

Roubando uva do pé!

Apreciação enológica

Guiando-se em Auxey-Duresses

Algumas horas depois, já tendo degustado vinhos de 4 a 30 euros, foi com muito pesar em nossos corações que chegamos à nossa hora de partir. Uma nova plaquinha para que pudéssemos recuperar as bicicletas em Pommard e não tardou 10 minutos para que um simpático casal, a caminho de Beaune, nos acolhesse e nos deixasse mais uma vez na entrada de Pommard.
Pegamos as nossas bicicletas e nos preparamos para o “longo” caminho que nos aguardava, e… qual não foi a nossa surpresa quando, em pouquíssimo tempo, chegamos de volta a Beaune. Já diz o ditado, “pra baixo todo santo ajuda”. Cruzamos a cidade novamente e chegamos na gare exatamente a tempo de pegar o último trem com destino a Grenoble.

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