Um domingo (mais) triste

Todos estamos sujeitos.

Quantos jovens injustamente se sentirão culpados por terem convidado aquele amigo para a festa, aquele que, longe demais da saída, tentou refúgio no banheiro, e não conseguiu escapar da inclemência do fogo?
Quantos pais e amigos não tiveram a chance da despedida?
E por outro lado, quantos outros pais e amigos, todos os dias, também não têm essa chance quando das pequenas tragédias cotidianas?

Quem nunca fez festa em um lugar pequeno demais, ou apertado demais, ou sem a segurança adequada? Quem nunca fez ou viu alguém fazendo, de propósito ou não, uma bobagem irresponsável que poderia ter acabado mal?

Houve uma sucessão de erros no caso da boate Kiss, um sem-número de ocorrências de irresponsabilidade. E é triste que, para que haja punição à irresponsabilidade, tenha que haver tragédia. Para as demais boates, a superlotação, a falta de saídas de emergência, a falta de sinalização, a falta de preparo dos seguranças, a brincadeira com fogo, e mesmo o despreparo dos foliões, que não sabiam onde se refugiar ou que corriam por suas vidas desorganizadamente, pisoteando os demais; tudo isso, para as outras boates, não será um problema, pois isso tudo só se tornou um problema para a Kiss quando uma fagulha acertou algum material inflamável. Aquela fagulha, que pôs o ponto final em tantas histórias. Aquela fagulha, que denunciou irresponsabilidades e falhas: dos donos, dos seguranças, da banda, da sociedade, do poder regulador.

Presto aqui minhas condolências aos familiares das vítimas deste acidente, e de todas as demais tragédias que ocorrem todos os dias graças ao descaso do humano com os demais de sua espécie. Que os sobreviventes possam ter paz, bem como todos nós, sobreviventes da luta diária que é viver neste mundo. E, sobretudo que, daqui para frente, a fagulha que inflama e denuncia seja apenas metafórica.

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Sciences Cognitives

Estou de volta ao Brasil. Sou relapso com este blog. Ainda assim, planejo não deixar Monde Pois morrer. Tenho planos de ainda trazer muitas histórias para ele.

O último update que eu dei por aqui sobre a minha vida estudantil foi ainda no início de 2011, com a grade do Master 1 em Informática, então acho que está na hora de uma atualização neste campo.
O M1 correu bem, apesar de alguns percalços e dificuldades, consegui a aprovação. Mas ao final dele, eu estava cansado, querendo dar uma guinada nos meus estudos – mas continuar estudando. Então pesquisei e encontrei o Master Recherche Sciences Cognitives, uma formação de M2 conjunta entre várias universidades de Grenoble – UJF, UPMF, Stendhal e INP, sendo a última a responsável administrativa do curso.

O que são Ciências Cognitivas?

As ciências cognitivas designam normalmente o estudo científico da mente ou da inteligência.
A formação é basicamente um misto de várias disciplinas, incluindo Psicologia, Informática (sobretudo Inteligência Artificial), Linguística, Filosofia e Biologia. Eis a lista extensiva de disciplinas oferecidas: Psicologia Cognitiva; Ferramentas e Métodos Experimentais para Estudo do Cérebro e do Comportamento; Redes de Neurônios Formais (Redes Neurais); Inteligência Artificial, Vida Artificial e Cognição; Linguística; Filosofia da Linguagem; Comunicação Falada (opt); Sinais, Imagens e Modelos de Percepção Visual (opt); Modelos de Memória e Aprendizagem em Sistemas Naturais e Artificiais (opt); Neurociências Cognitivas de Competências Precoces: desenvolvimento da memória, da visão, da fala, das interações sociais e multimodais nos bebês (opt); Cognição Bayesiana: Modelos para Percepção, Aprendizado e Ação (opt).
Dentre as 5 optativas, era preciso selecionar 4. No total, 9 disciplinas, 10 se contar a língua estrangeira, tudo em apenas um semestre. O segundo semestre é reservado ao estágio de 5 meses e à escrita da monografia. Mas ao final a agenda não fica assim tão cheia. O calendário muda toda semana, de acordo com a disponibilidade dos professores, a ordem prática dos conteúdos etc. Mas é mais ou menos assim:

A carga do M2 de Ciências Cognitivas, nesta semana.

A carga do M2 de Ciências Cognitivas, nesta semana.

A diferença entre o meu primeiro ano e o segundo ano na França, além daquela óbvia do conteúdo, onde pulei de uma exata para uma pluridisciplinar, foi a língua. Enquanto o MoSIG é ensinado em inglês, tendo alunos de todo o mundo, o IC2A é ensinado em francês, tendo poucos alunos estrangeiros. Da minha turma, eu era o único não-francófono (havia 3 tunisianos mas, bem, na Tunísia se fala francês, então). Além de mim, apenas um outro intercambista Erasmus, vindo do Luxemburgo, mas que só fez algumas disciplinas.

A dificuldade da língua foi uma das barreiras que fizeram com que este semestre de estudos tenha sido um pouco menos agradável para mim. O resultado destas barreiras foi que eu não fui bem nas provas e fiquei com notas abaixo da média.

No semestre seguinte, arranjei um estágio na equipe de dialetologia do GIPSA-lab (Grenoble Images Parole Signal Automatique). De início, sem ter um tema bem definido, apenas especificado que eu iria trabalhar na área de motivação semântica, com o português brasileiro (o meu “diferencial” de ser brasileiro tinha que servir para alguma coisa, não é?) Após algum tempo de pesquisa em colaboração com os professores, levando em consideração o tempo disponível e a limitação física (a monografia deveria ter cerca de 30 páginas), definimos o escopo do trabalho, que ficou sendo a motivação lexical para as denominações de arco-íris no Brasil (no original, lexical motivations of the denominations for the rainbow in Brazil)

Para quem não é familiarizado com o estudo da motivação lexical, o vídeo abaixo dá uma breve ideia sobre os limites da linguagem e a aparente arbitrariedade das palavras (a partir de 6:20) (em inglês).

O resultado deste estágio então foi uma monografia escrita em inglês, de 30 páginas, abordando os princípios gerais da pesquisa sobre motivação linguística, a teoria, a relação com as ciências cognitivas, e, sobretudo, uma análise das diferentes denominações documentadas para o arco-íris em atlas linguísticos brasileiros. O trabalho foi bastante elogiado pela banca por mostrar uma visão distinta do trabalho do linguista, uma visão que claramente não vem de um especialista na área, mas de alguém “de fora”. Abaixo, link para o trabalho completo:

http://fr.scribd.com/doc/115617628

Et voilà.

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Dijon, Beaune, Auxey-Duresses e… Pommard!

Férias de Toussaints, uma semana livre, mas sem dinheiro, o que fazer? Resolvemos viajar por apenas um final de semana, para algum lugar perto daqui. Após algumas pesquisas, Carol encontrou o festival Coup d’Oeil, Coup de Coeur, na pequena vila de Auxey-Duresses, na Bourgogne, que aconteceria naquele final de semana específico.

Coup d'oeil, coup de coeur

De quebra, poderíamos conhecer Beaune (a cidade mais próxima) e Dijon (capital da região). Assim, começamos a pesquisa: hotel, transporte, comida, etc. Não encontramos hotel disponível (a preço acessível) em Beaune, então resolvemos passar a noite em Dijon. Aí surge o primeiro empecilho: o hotel que encontramos era longe do centro, na saída da cidade. Pesquisamos sobre o transporte em Dijon, sem muito êxito, e resolvemos ligar para o hotel. “Tem como chegar ao hotel de ônibus?” “Não.” “Tram?” “HAHA, certamente não!” (explicação: a cidade toda está em obras, pois estão construindo o Tram em Dijon). Começamos a nos conformar com a ideia de pegar um táxi até o hotel, pois seria mais barato que pegar um hotel no centro.

E já que estávamos pesquisando sobre transporte, como poderíamos chegar a Auxey-Duresses? Ligamos então para a organização do festival. “Existe trem? Ônibus? Tram? Aeroporto? Helicóptero?” Não, acesso apenas por carro. Ou seja, táxi novamente. A brincadeira estava começando a ficar cara. Foi aí que Carol teve a brilhante ideia: por que não levamos nossas bicicletas? Para ir até Auxey-Duresses não seria a solução ideal, pois, pensamos, teríamos que ir pela estrada, mas para passear por Dijon e ir até o hotel, perfeito! O trem que leva à Bourgogne aceita que levemos as bicicletas, então que assim seja!
Compramos, então, as nossas passagens, acordamos cedinho no sábado, pegamos nossas magrelas e rumamos à gare para pegar o trem de 5h46 rumo a Beaune. 9h da manhã em Beaune, fomos fazer o que tem de melhor pra fazer assim que você chega em qualquer cidade da França: procuramos a Office de Tourisme. Lá, pegamos um mapa da cidade e também descobrimos que existe uma ciclovia que liga as vilas da região, inclusive Auxey-Duresses. São 15km, mas nada de ir pela estrada como imaginávamos. Com o mapa em mãos, fomos passear. Primeiro, pela feira da cidade, vendo os produtos da região e comendo framboesas. Depois, uma entrada nos Hospices de Beaune. O prédio, um antigo hospital, tem uma bonita arquitetura e um belo telhado, mas, francamente, é só. Não valeu a pena pagar para entrar. Em seguida, o Museu do Vinho da Borgonha. Um pouco mais interessante, mais barato e mais vazio, explicava sobre o processo de fabricação do vinho, nomenclaturas e regiões de produção.

Feira de rua de Beaune

Hospices de Beaune

Baco, no Museu do Vinho

Após o breve passeio em Beaune e um beef bourguignon no almoço, já era hora de pegarmos outro trem com destino a Dijon. Após encontrar a Office de Tourisme, pegar o mapa com o roteiro turístico e o mapa de ciclovias, lá fomos nós a pé pelo centro, seguindo as corujas. A arquitetura da cidade é muito interessante e os telhados estão sempre chamando a atenção, mas, fora isso, achei não tem muito pra ver. Ainda visitamos um museu, mas já estávamos cansados, então resolvemos ir logo jantar (um McDonald’s) e seguir para o hotel.

De bicicleta na gare de Dijon

O caminho das corujas

A arquitetura de Dijon

E lá fomos, com o mapa em mãos, de bicicleta, percorrer os 4,5km que nos separavam do extremo norte de Dijon, enquanto a noite caía sobre a Bourgogne. A primeira metade do caminho foi tranquila, seguimos o mapa sem problemas. Em um determinado ponto, o mapa estava com um nome de rua errado, mas mesmo assim seguimos o caminho certo. Chegamos à Av. Stalingrad, uma longa avenida que leva à saída da cidade pelo norte, e onde tem uma ciclovia lateral. Ela é também deserta, rodeada de mato em alguns pontos e soturna, à noite. Seguimos eternamente aquela avenida e, quando a ciclovia acabava ali, deveríamos dobrar à direita. Quando a ciclovia acabou, havia mato adiante, saindo da cidade, uma rua onde a ciclovia continuava à esquerda, e, à direita… um pequeno túnel para pedestres e ciclistas, sem nenhuma iluminação.

Clique para ver no Google Maps

Tá vendo esse túnel da foto? Nenhum problema em entrar ali né? Quero ver você dizer isso à noite, nada nem ninguém ao seu redor, nenhuma iluminação a não ser as lanternas das bicicletas (benditas sejam!). Sendo o único caminho possível para nós, lá fomos. Do outro lado do túnel, um pequeno trecho no meio do mato fechado e voilà a rua do nosso hotel! Conseguimos chegar com vida e passamos uma bela noite de sono.

Domingo de manhã, um café da manhã reforçado no hotel (muitas fatias de pão com manteiga!) para aguentar a próxima pedalada! Resolvemos que iríamos mesmo de bicicleta até Auxey-Duresses. Primeiro, 4,5km até a gare. Pegamos o trem de volta para Beaune, atravessamos a cidade e pegamos a véloroute la voie des vignes! O primeiro trecho foi subida, subida, subida… e pequenas paradas para colher umas pinot noirs do pé. Chegamos então a Pommard, já cansados da subida. Com as paradas, fotos, e a diminuição da velocidade por conta do ângulo de inclinação do caminho, demoramos uma eternidade para concluir essa etapa, e chegamos à conclusão de que, se continuássemos nesse ritmo, não chegaríamos a tempo de aproveitar o festival, então resolvemos chamar um táxi. Pegamos os números de táxi que já havíamos anotado e ligamos. Um não atendia, outro só iria estar disponível mais tarde, outro queria cobrar 40 euros só de ida, outro não estava disponível… perguntamos para as pessoas na vila se havia algum táxi por ali e só nos direcionavam para Beaune. Já era mais de 14h e seguir o caminho de bicicleta estava fora de cogitação. Resolvemos tentar almoçar em Pommard mesmo. Restaurantes fechados. Entrei em uma loja de vinhos para perguntar onde havia algum café, ao que a moça respondeu: “o único café é aquele que está ali na esquina, mas está de férias nesta época”. Ou seja, nada para comer também. Perto da desistência, estávamos quase voltando para Beaune, quando surgiu o espírito aventureiro: vamos pedir carona?!

Plaquinha de caroneiros

Sim! Prendemos as bicicletas e fomos para a beira da estrada (que era onde ficava o “café”), com a plaquinha na mão escrito “Auxey-Duresses”. Totalmente incrédulos, é claro, com a possibilidade de realmente conseguir uma carona. Cerca de 5 minutos depois, um carro com duas senhoras, de farol aceso e direção caótica, parou logo na nossa frente. Sim! Conseguimos a carona! Elas moram na região e estavam indo também para a pequena vila a fim de degustar a nova safra de grand crus, embora não soubessem do festival. Fica aqui o nosso agradecimento a elas!

Merci, mesdames!

8 euros depois, estávamos os dois com taças na mão, prontos para passar de vinícola em vinícola experimentando o que a Bourgogne tem para nos oferecer de melhor. Comemos um pequeno lanche, porque saco vazio não para em pé, e saímos a vagar pela multidão concentrada nas ruas da vila. Uma adega, duas adegas, três agedas, quatro adages, cinco adgasda, seich… premier cru, grand cru, duresses, auxey, pommard, blanc, rouge, pinot noir, millésime… tantos conceitos que já não lembro mais nem o que significam. Posso afirmar, contudo, que me agradaram muito os premier crus.

Roubando uva do pé!

Apreciação enológica

Guiando-se em Auxey-Duresses

Algumas horas depois, já tendo degustado vinhos de 4 a 30 euros, foi com muito pesar em nossos corações que chegamos à nossa hora de partir. Uma nova plaquinha para que pudéssemos recuperar as bicicletas em Pommard e não tardou 10 minutos para que um simpático casal, a caminho de Beaune, nos acolhesse e nos deixasse mais uma vez na entrada de Pommard.
Pegamos as nossas bicicletas e nos preparamos para o “longo” caminho que nos aguardava, e… qual não foi a nossa surpresa quando, em pouquíssimo tempo, chegamos de volta a Beaune. Já diz o ditado, “pra baixo todo santo ajuda”. Cruzamos a cidade novamente e chegamos na gare exatamente a tempo de pegar o último trem com destino a Grenoble.

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Burocracia, uma palavra francesa

A criação do termo burocracia é atribuída a Jean-Claude Marie Vincent, ministro francês do século XVIII. A palavra tem seus radicais no francês bureau, escritório, e no grego krátos, poder. Assim, o significado original de burocracia é o exercício do poder por funcionários de escritórios. E não é à toa que esta palavra tem a sua origem no solo gaulês. Um personagem animado, não por acaso, gaulês, pode nos mostrar muito bem como funcionam os serviços de escritório na França:

(Os vídeos estão em português, mas em francês é muito mais divertido!)

Para ilustrar os problemas que todos passamos dentro dos bureaus franceses, contar-lhes-ei a novela que se passa comigo há alguns meses:

– Julho: Férias no Brasil! Praia, água de coco, churrasco, vida boa, avião. Chegando de volta à França, a universidade já de férias, tornando impossível a solicitação do histórico escolar, documento necessário para a renovação do visto e da residência universitária. Ainda assim, consegui falar com uma funcionária da universidade, que prometeu preparar o documento e entrar em contato por e-mail para eu ir buscar. Nunca mais tive notícias.

Burocracia, la tortuguita

– Agosto: Já no início do mês, é o CROUS quem entra de férias (órgão que gerencia os alojamentos estudantis). Assim, me impossibilitando de dar entrada na solicitação de renovação do alojamento (cujo contrato vencia no dia 31 de agosto). Ainda assim, através de outro meio, consegui com que o meu dossiê chegasse ao CROUS no dia 8 de agosto. Cabe lembrar que, pra cada solicitação que fazemos aqui, do que quer que seja, temos que entregar um dossiê com vários documentos, muitos dos quais eles já têm, mas (teoricamente) não aceitam se você não entregar o dossiê completo. No meu caso, foi sem o histórico escolar mesmo, e não reclamaram por causa disso, reclamaram foi porque não poderiam me atribuir um quarto sem que eu tivesse um visto válido, e o meu havia vencido no dia 2 de agosto.
Para os estrangeiros na França, existe o titre de séjour, um documento válido por um ano e que garante a sua legalidade no país. Quem está no seu primeiro ano na França, entretanto, não recebe este documento, mas dois adesivos no passaporte: um, dado pelo consulado no Brasil, e o outro dado pelo escritório de imigração (OFII) na França. Este último garante ao estrangeiro os mesmos direitos dados pelo titre de séjour.
Ora, o meu visto venceu em 2 de agosto, mas o documento do OFII tem validade de um ano, e o meu tinha carimbo de 29 de novembro (sim, foi só no fim de novembro que consegui o carimbo, ano passado, mas isso é outra história). Enviei mais de uma vez este documento ao CROUS, mas a única resposta que obtive foi “infelizmente, não podemos aceitar o documento do OFII para este fim, precisamos do titre de séjour“.
Ainda em agosto, então, juntei documentos e fui à prefeitura solicitar a renovação do meu visto, e então pegaria o meu titre de séjour. A prefeitura, entretanto, solicita, na composição do dossiê, a inscrição ou pré-inscrição da faculdade. Nesta época, eu tinha apenas uma carta de aceitação ao M2 (segundo ano de mestrado), condicionada à minha aprovação no M1, cujas provas de recuperação eu ainda tinha a fazer. Solicitei uma atestação de pré-inscrição à faculdade, mas, claro, não fui respondido: estavam de férias até o fim de agosto. Não pude entregar o dossiê de renovação do visto.

É só um dossiezinho...

– Setembro: Sem ter conseguido renovar visto nem residência, fiquei sem teto. A solução foi me alojar temporariamente na casa da namorada, somente até eu conseguir renovar o visto e pegar um quarto para mim. Com o fim das férias, a universidade me enviou a atestação que eu pedi, mesmo antes do resultado do M1, que sairia apenas no dia 20 (as aulas do M2, a propósito, começaram no dia 12, uma semana antes de eu saber se tinha sido aprovado, ou seja, fui para aula sem saber se ia seguir o curso e sem estar inscrito… coisas da França).
Com a chegada de setembro e os inúmeros estudantes retornando de férias ou chegando ao país, passa a ser necessário agendar horário para ir à prefeitura entregar o dossiê. Então fiz o agendamento no início do mês e fui marcado para o dia 14. O curioso é que, neste dossiê, é preciso entregar comprovante de residência. Então pedi a uma amiga que preenchesse um documento dizendo que eu estava alojado na casa dela (pois eu não poderia, segundo as regras, estar hospedado no quarto da minha namorada). Fui todo pimpão à prefeitura e quase esmurrei a parede quando a moça me disse que eu tinha que levar cópia do documento e comprovante de residência da pessoa que me hospeda. Ok, desta vez foi mesmo minha culpa, eu não li direito e não vi que estes documentos eram necessários. Posso entregar o dossiê e vir amanhã entregar estes outros dois documentos? “Não. Temos que agendar um novo horário. O mais próximo é no dia 7 de outubro.” Holy crap.

Sem pressa, dona Burocracia

– Outubro: Dia 7. Lá vou eu novamente à prefeitura, agora com a cópia do titre de séjour da minha amiga e o contrato de locação do apartamento. A moça me informa que o contrato de locação não serve, é preciso que seja uma fatura recente, e ela não pode aceitar o meu dossiê. Além disso, implica com outros documentos que não estão no padrão que ela costuma ver. Aí eu já não aguentei. “Não é possível, é a terceira vez que venho aqui e sempre tem algum problema!” A moça se espantou e disse “pois me conte a sua história”. Quando eu disse que estava na casa da minha amiga temporariamente, e após pegar o documento da prefeitura eu solicitaria novamente um alojamento universitário, ela teve duas reações: a primeira foi estranhar, pois “todos os dias, quinzenas de estudantes” vão lá renovar ou solicitar o visto e já têm uma residência universitária para o ano. A segunda foi me informar que, para solicitar a renovação eu preciso ter um endereço definitivo, pois, se eu mudar de endereço depois, é necessário entrar com um novo pedido, entregar um novo dossiê, pagar novamente… então o meu próximo passo deveria ser conseguir um quarto. Saí de lá com um novo agendamento para o dia 7 de novembro.
No mesmo dia, de posse das novas informações, fui ao CROUS reclamar. A moça insistiu que eu não poderia pegar um quarto sem ter o visto válido, disse que eu deveria ter solicitado o visto mesmo com o endereço de onde eu estava, blablabla. Então me deu na telha de mostrar a ela o meu passaporte, com o adesivo e carimbo do OFII. Ela olha e responde “ah, isso serve. Você deveria ter mostrado isso antes”. Olhei para ela embasbacado e disse “mas eu enviei esse documento duas vezes antes…”; “não, você deve ter enviado este outro” (mostrando o visto, vencido no dia 2 de agosto). Ok, melhor não discutir, vai que ela muda de ideia, né? Na mesma hora ela me entregou o documento dizendo que eu podia pegar um quarto na secretaria da residência.
Saindo do CROUS, pensei em não perder mais tempo e fui direto à secretaria pegar o meu quarto novo. Lá duas moças super atenciosas me atenderam, e uma terceira ficou resmungando comigo e querendo me passar sermão. Acontece que no documento dizia que eu tinha 72 horas para entregar um dossiê contendo documentos de fiador, caução e o diabo. Por experiência, eu já sei que eles são super maleáveis com prazos e que eles concedem o quarto antes de termos todos os documentos, podendo entregá-los depois, mas essa moça aparentemente não foi com a minha cara mesmo. Assim, os dois dias subsequentes foram correndo atrás de uma maneira da faculdade ser minha fiadora (o que eu sei que pode ser feito porque conheço uma pancada de gente que fez isso, mas aparentemente é muito difícil encontrar alguém na faculdade que saiba como isso deve ser feito). Ao entregar o documento na secretaria, a moça não queria aceitar; disse que não era comum o fiador ser a faculdade, falou com os superiores, resmungou, mas no fim teve que acatar. E assim eu tenho mais uma vez meu espaço.

Acho que agora não falta nada!

– Novembro: No dia 7 volto à prefeitura. Desta vez não pode dar erro, tenho todos os papéis em mãos 🙂

Aparentemente, é muito comum aqui na França a interpretação bastante particular das regras. Ou seja, todos querem seguir as regras, mas cada funcionário interpreta de um jeito, ou acha que é de um jeito. Temos três exemplos só nessa história: a funcionária do CROUS que disse que o meu documento não valia, e depois a outra que aceitou; a funcionária da prefeitura que implicou com documentos que a funcionária anterior disse que eram bons; a funcionária da residência que não queria me dar o quarto, até que o chefe dela disse que podia.
A lição que tiramos dessa história é: não desista. Se você foi impedido por alguém de realizar uma ação burocrática, volte outro dia e fale com outra pessoa.

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Termos de pesquisa

Li no blog de um amigo, que já não existe mais (o blog, não o amigo) [Edit: o blog ainda existe, sim. O amigo também.], já tem algum tempo (tempo, tempo, e tempo), um texto interessante onde ele respondia aos termos de pesquisa que as pessoas utilizaram para chegar ao blog dele. Como achei esta uma ideia assaz interessante, resolvi fazer o mesmo por aqui, então eis as maneiras como as pessoas chegam ao Monde Pois:

mondepois (6)
monde pois (6)

Está tão famoso o blog que ninguém sabe o endereço de cor…

mosig grenoble (4)

É o curso que eu faço, sim. Para se inscrever pelo programa Grenoble-Brasil, o prazo já passou, mas você pode se inscrever direto no MoSIG por aqui: http://mosig.imag.fr/MainEn/Admissions

test pug 5008 (2)

Bom, não foi bem um teste, mas o Peugeot 5008 foi, sim, o carro que usamos para ir à Côte d’Azur. Gostei muito do seu desempenho, ele é bastante espaçoso e os freios funcionam bem (apesar de eu só tê-lo dirigido até a padaria da esquina).

“opinioes sobre a residencia berlioz em grenoble? (2)

Sim, tenho opiniões! As mais positivas possíveis! Primeiro, porque tenho muitos amigos aqui na Berlioz. Segundo, porque é um lugar onde podemos ter privacidade quando necessário e sociabilidade quando queremos. O banheiro é privativo e a cozinha é coletiva.

gibi aula (2)

Tenho certeza que existem muitos cursos especializados em HQ (e eu acharia interessante cursar algum deles um dia), mas a aula que eu tenho aqui definitivamente não é gibi.

marselha france (2)

Uma cidade suja e fedida, à primeira vista. Mas tem mar.

fotos da cidade de nice- frança (2)

Voilà Nice

ervilhas do porto, pottugal (2)

Não sei se as ervilhas do Porto são diferentes das outras, mas sei que podes elaborar algumas receitas utilizando ervilhas E vinho do Porto… será que serve?

existe onibus de juan les pins a marselha? (2)

Sinceramente, não sei, já que eu fui de carro. Podes tentar dar uma olhada nesse site.

residência universitária houille blanche (2)

Excelente residência, com piscina, sala de jogos e o escambau. Infelizmente, banheiros coletivos. E preço elevado.

kardecismo en aix-en-provence (2)

Infelizmente (para você), não estou familiarizado com a comunidade espírita da região de Provence…

aeroporto frança imigração (1)

Bom, entrei na UE por Lisboa e não tive problemas, não sei como foi pra quem entrou por Paris.

hotel paris la paz (1)

O único hotel que conheci em Paris foi o F1 Montmartre. Talvez eu devesse checar este tal de La Paz para a minha próxima visita.

“endereço da residencia berlioz em grenoble? (1)

361, Allée Berlioz, St-Martin-d’Hères, Code Postal 38400.

mondepois cassio (1)

Tô famoso!

palais de l’isle (1)

Residência oficial do Lorde de Annecy, no século XII, é atualmente um dos pontos mais fotografados do planeta.

Le Palais de lIsle, no canal de Annecy

fotos de nice frança (1)

Mais? Toooodo bem!

Taí então

imigração carimba o passaporte em lisboa? (1)

Sim.

alguém já foi em chambery (1)

Sim. Não tem nada lá, só uma estátua de quatro elefantes.

por do sol e chimarrao (1)

Porto Alegre, o pôr-do-sol mais lindo do mundo!

Porto Alegre é demais!

festa em monde alegre do sul (1)

Você quis dizer: festa em monte alegre do sul

monde pois wordpress (1)

Pois é, meu blog está hospedado no WordPress.

galerinha mais ou menos (1)

São estes.

notre dame marseille (1)

Uma das poucas coisas boas de Marseille, fora o mar.

residencia universitaria houille blanche (1)

Vide “residência universitária houille blanche”, acima.

viagem a voiron (1)

Saindo de Grenoble dá pra pegar o trem, não lembro o valor, mas não é caro não. Outra cidadezinha que não tem muita coisa, mas a fábrica da Chartreuse é até interessante.

grenoble-bresil 2012 (1)

As inscrições para Master já acabaram, mas para intercâmbio ainda tá valendo, corre lá!

juventudista gata (1)

Você está procurando no lugar errado, amigo. Aproveite a boa fase e vá ao estádio, lá você encontra várias.

delacroix bastilha (1)

A Liberdade Guiando o Povo, Eugène Delacroix

“sopa de ervilha” “ervilha em conserva” -leite -creme -sanduiche (1)

Quer fazer sopa com ervilha em conserva, sem leite nem creme de leite? Simples, frita um bacon, uma calabresa, joga a ervilha junto com um pouco de água e deixa lá até virar sopa.

subir montanhas (1)

Depende a montanha que você quer subir, né. Eu só subi a pé, pra isso você só precisa de um tênis ou bota para randonée. Agora, se você quiser praticar montanhismo, desculpe, não posso lhe ajudar.

como ir da italia a suissa de carro para carimbar o passaporte (1)

Quando passei pela Suíça foi de ônibus, na excursão para a Oktoberfest. Sei que eles são realmente chatos, pois fomos parados na alfândega, é preciso ter a documentação de todos os passageiros, sim.

grenoble feia (1)

Grenoble feia?? Você tá maluco? Feio é você!

intercambista em grenoble (1)

Olha, tem bastante, principalmente brasileiros. Grenoble é uma cidade universitária que recebe gente de todo mundo. É comum você sair na rua e ouvir inglês, árabe, espanhol, italiano, e, sobretudo, português, muito embora nos estabelecimentos seja difícil encontrar alguém que fale outra língua que não o francês.

navio universitario na semana do saco cheio – outubro 2011 (1)

É… falou grego pra mim.

mosig grenoble china (1)

A minha colega chinesa do MoSIG é realmente um geniozinho, mas tem só uma na classe.

procurar carros sem carta em chambery (1)

Carro em Chambéry? Pra quê? Dá pra fazer tudo a pé por lá.

voiron+chocolate+horario (1)

Acho que o que o amigo procurava era isso, mas eu gostaria de agradecê-lo por me fazer descobrir que Voiron tem mais do que eu pensava: tem uma fábrica de chocolates! Mal posso esperar para voltar a essa maravilhosa cidade!

dsc08688 (1)

Subindo a montanha

Eis a foto de nome DSC08688.

intercambio grenoble (1)

Procure o departamento de relações internacionais da sua universidade e visite os sites das universidades de Grenoble para descobrir as opções de intercâmbio. Além, é claro do site da Grenoble-Brésil.

história de sisteron castelos (1)

Desconheço e tô com preguiça de procurar. Désolé.

E por hoje é só, pessoal. Obrigado pela preferência e voltem sempre.

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Família 6100

Quem acompanha o que eu escrevo aqui talvez lembre da história de como conheci Carol e Lorreine, no meu primeiro dia em Grenoble. De lá pra cá, muitos “olá, muito prazer” ficaram sem registro no blog, e alguns até na memória (acaba acontecendo quando você conhece assim tanta gente em um curto período de tempo). Naquela minha primeira noite, por exemplo, quando cheguei na cozinha e vi um bando de brasileiros fazendo zoada, eu lembro que lá estavam o Leo, Samuel, Felipe, e, claro, a Carol, que eu já tinha conhecido horas antes. Eu lembro do primeiro dia de CUEF, quando conheci a Naty, aquela menininha meio assustada no meio de tanta coisa nova e que virou uma grande amiga antes que eu me desse conta. Lembro de uma noite, a caminho do Théatro, quando conhecemos aquela menina chamada Sara, e de quando a encontramos por acaso no Casino e a convidamos pra jantar conosco. E fico triste quando constato que não lembro do Rafa, da Fer e da Thaís naquela primeira noite; que não lembro do exato momento em que conheci a Nai, a Bia, a Ale, o Lobão, e tantos outros que entraram na minha vida nos últimos meses.

Eu lembro de quando existiam “grupo A”, “grupo B”, e sei lá quantos grupos mais, até irmos nos conhecendo cada dia melhor e percebendo que formamos todos uma grande família, a comunidade brasileira em Grenoble. Uma família com quem você pode contar quando precisa falar um pouco de português, comer uma feijoada, e principalmente quando precisa de ajuda para resolver seus problemas, pois alguém já passou pelo mesmo que você – e porque contar os seus problemas é muito mais fácil na sua língua nativa.

A família do corredor 6100 é um pequeno núcleo desta grande família. A diferença, aqui, é que moramos todos juntos: nos vemos todos os dias, jantamos juntos, desabafamos uns com os outros, não temos pra onde fugir quando alguém bate à nossa porta. Somos uma família, pois, por mais que tenhamos as nossas diferenças, nós aprendemos a conviver diariamente uns com os outros, nos afeiçoamos e nos importamos uns com os outros.

Este mês, o corredor 6100 perde a sua mais instigante componente, uma guardiã de Grenoble que parte em busca de bombásticos desafios na sua terrinha, lá e de volta outra vez. Eu lembro do dia em que conheci Carol, lembro do que ela fez por tanta gente dessa família, lembro do dia em que ela me deixou entrar na sua vida, lembro dos trams que pegamos, dos jantares que tivemos, das risadas que demos juntos, lembro de todo o carinho que eu sempre senti por ela, e tenho certeza que vou me lembrar também do dia em que ela partir deste corredor para não mais voltar. Ainda teremos muitas memórias a construir, mas esse corredor não será o mesmo sem a nossa guardiã.

Me deixa um pouco triste essa efemeridade do intercâmbio. As pessoas vêm e vão, te trazem alegria, mas depois vão embora. Grenoble, para mim, perdeu um pouco do seu encanto com a ausência da Naty e da Ale, duas meninas de coração puro, e que me fazem tanta falta, e perderá mais um tanto nos meses em que Carol não estará aqui. Mas o que é o intercâmbio, senão uma sinopse da vida, certo?

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Grenoble-Brésil

Ei, você, que está aí no Brasil, querendo fazer um intercâmbio, um mestrado, um doutorado, um duplo diploma, alguma coisa assim diferente, mas fora do Brasil, não deixe passar essa oportunidade!!

O programa Grenoble-Brésil está com inscrições abertas para o ano letivo 2011-2012, mas agilize que é só até o dia 30 de março (para o Master)! Você pode se inscrever sem ser por esse programa? Pode. Mas o programa Grenoble-Brésil te auxilia em muitas coisas, por exemplo, a conseguir uma residência, te auxilia no que for preciso na sua acolhida aqui, além, é claro, de fornecer um curso intensivo de francês durante o mês de agosto – mês que pode ser o melhor da sua vida.

Pra quem vai fazer intercâmbio, parece que o limite é 16 de maio, mas não deixe tudo para a última hora! São vários documentos para correr atrás, tirar cópia, traduzir, enviar etc, sem falar na novela do visto. Faça logo o seu passaporte, separe seus documentos (comprovantes de renda e esse tipo de coisa) e agende uma entrevista no consulado assim que possível, porque essa etapa é bem demorada.

Vocês podem acompanhar a novela que eu passei nos primeiros posts deste blog, ou podem me perguntar qualquer coisa pelos comentários ou por e-mail, que eu respondo (sempre que posso…).

Venham pra Grenoble que é muito legal! =)

E eis o site do programa: http://www.grenoble-univ.fr/programme-bresil/

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